Em 1986 a famosa revista NME resolveu selecionar o que havia de melhor rolando em fitas k-7 da cena independente inglesa, organizando assim uma coletânea e lançada em cassete mesmo. Esta coletânea acabou se tornando um marco, pois é tratada como um prenúncio do que viria a ganhar holofotes mais tarde. Quando relançaram em 2006 uma edição especial, a coletânea foi subtitulada como "the birth of indie rock", o que estou longe de discordar. A qualidade das gravações é aquela única e especial das fitas k7. O engraçado é ouvir algumas bandas que depois ficam famosas e bem produzidas em sua versão quase "demo". C86 é uma coleção interessante para entender melhor a cena underground britânica dos anos 1980. Seu som ainda mantém a simplicidade do fresco punk rock, mas já bem encaminhados para experimentações, psicodelias e melodia.
sábado, 30 de agosto de 2014
domingo, 17 de agosto de 2014
Charlie Megira & the Modern Dance Club - Love Police (2012)
Charlie Megira me desconcertou. Sua sonoridade já tem algo ali que conhecemos, o abuso do reverb, guitarras nevorsas, vocais berrados, referências claras a um rock "morto", 50toso, ou 90toso, porém tudo isso de uma maneira bem original, pois são referências, não imitações. Confesso que não esperava tanto de um cara alto, desajeitado e estranho vindo de Israel (!). Acontece que você vai pirar no seu som, que passeia pelo shoegazing e surf rock. Talvez temos aqui uma banda que traga algo novo para o rock, porém esse disco é restrito ao que chamamos de underground, não é nada pop, mas é muito bom. Seu disco é selvagem, cru e puro. Já aviso que foi complicadíssimo achar qualquer material dele, então aproveitem a oportunidade, pq o disco vale a pena.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
Desperete Bicycles - Remorse code (1979)
O final da década de 1970 foi marcado por bandas preocupadas em produzir o seu tipo de música. Por mais que a simplicidade tenha se tornado uma marca registrada de boa parte dessas bandas, não podemos esquecer do esforço delas. Vai ver essa busca por um som seu esteja de acordo com a forte tendência DIY da época. Desperete Bicycles é uma banda de excelência quando o assunto é "do it yourself", sempre lançaram seu material de forma independente e nunca chegaram a ser algo muito grande, apesar da relativa fama. Acabaram em 1981 e devido a sua pretensão exclusiva de apenas gravar sua música, demorou algum tempo para surgirem apresentações. Seu caráter amador é perceptível. Com uma sonoridade engraçada e particular, parece que eles desenham muito do que ganha corpo e forma mais tarde. Talvez um primeiro rascunho de um Gang of Four menos funky e mais experimental.
sábado, 2 de agosto de 2014
Pink Floyd - Obscured by Clouds (1972)
Não é preciso dizer nada sobre o Pink Floyd, todo mundo sabe quem eles são e a importância deles para a música pop. O problema sério do Pink Floyd é que sua música está num patamar tão único de beleza e arte, que somado a suas músicas de dez minutos, acaba criando um problema sério para ouvir Pink Floyd no dia-a-dia, seja pelo caráter intimista da música, ou do tempo gigante da canção, tornando as chances do aparecimento de um incomodo antes do fim da canção algo gigante. Neste sentido o disco Obscured by Clouds é um achado, pois suas canções são mais curtas, sendo a mais longa com 5:52 minutos, e ainda assim é Pink Floyd. No mínimo curioso como este disco acabou ficando de fora de muitas listas de discos desses ingleses doidões. Acredito que o dark side of the moon que veio depois, acabou ofuscando este discoi
O disco é resultado de uma trilha sonora encomendada para o filme La Vallée.
quarta-feira, 23 de julho de 2014
La Casa Fantom - Ingen ny dag (2006)
La Casa Fantom é daquelas
bandas difíceis de serem classificadas em um estilo, que possuem uma
sonoridade de tamanha personalidade e em constante transformação
que rotulações sempre parecem descabidas e incapazes de traduzir
sua estética de maneira satisfatória. Mas que, para fins de
esclarecimento, pode-se dizer que trazem junto à sua raiz hardcore,
sonoridades que remetem ao post-rock, essa mistura que,
convencionou-se chamar de “Neocrust”, palavras que não explicam
muita coisa, mas que para os mais familiarizados com determinadas
vertentes musicais dão uma ideia do que esperar dessa banda.
Esse disco em questão, o
Ingen ny dag, traz 10 músicas que misturam elementos diversos, indo
de hardcore, post-rock, screamo, black metal e até algumas
influências de música eletrônica (!). Essas tão diversas
influências poderiam soar forçadas,
artificiais,
como tantas vezes podemos notar quando algumas bandas tentam misturas
diversos estilos na busca fracassada por uma sonoridade única. Mas
esse duo de baixo/bateria norueguês, de certa forma, consegue juntar
todas essas influências em composições extremamente ricas e
harmoniosas.
A excentricidade da decisão
de formar uma banda sem guitarra é esquecida ao ouvir as músicas e
notar a versatilidade do baixista, e vale dizer, tudo aqui é muito
bem executado e sem soar demasiadamente produzido. Todo o
instrumental é extremamente melancólico e as linhas de voz, ora
sussurradas, ora berradas, ajudam a enriquecer as músicas mesmo que
não sejamos capazes compreender as letras (esse disco é todo
cantado em norueguês). Gostaria de insistir que tudo nesse disco é
muito bem feito, o que dá a esse curto CD com cerca de 27 minutos,
uma fluidez enorme. O disco chega ao fim com a talvez mais eclética
das músicas do La Casa Fantom, “Rømmer til skogen”. De forma
incrível, a música começa com um ritmo “eletrônico” e passeia
por todos os elementos da banda juntos, tudo envolto por uma áurea
de melancolia
medieval,
terminando assim esse desconhecido álbum que deveria servir
referência para o punk da nossa atualidade.
Os noruegueses do La Casa
Fantom, mesmo com todas essas influências, representem uma volta às
raízes para tudo aquilo que nos acostumamos chamar de post-alguma
coisa (post-punk, post-hardcore, etc.), mas que no fundo pouco
conseguem representar do nome que carregam. Ingen ny dag, é um disco
punk, essencialmente punk, no melhor e mais puro significado que essa
palavra representa.
By Januario
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Joy DIvision - Fractured Box (2001)
Quando você conhece a curta discografia de uma banda de cabo a rabo, pode ser cansativo re-ouvir as músicas que você tanto gosta. De fato Joy Division começou como uma banda de punk, mas foi modificando seu som e são a ponte clara entre o punk e o que veio depois. Definiram muito bem uma sonoridade simples, e ainda difícil de reproduzir sem cair em fórmulas prontas (o que afinal, parece valer para qualquer estilo musical). O que temos é uma dessas raras bandas originais e únicas, como poucas conseguem ser. De fato o som de Joy Division é algo triste, perfeito para dias frios e chuvosos, mas é também um som selvagem, cru, cheio de energia, e é nas apresentações ao vivo que isto fica mais claro. Talvez por isso muita gente não perceba a "depressão" de Ian Curtis ao ouvir Joy Division pela primeira vez. Além do mais ouvir sua banda favorita ao vivo é sempre algo diferente do disco de estúdio, no caso do Joy Division - e do New Order - algumas vezes podemos pegar alguns "erros" e mudanças na reprodução da música em relação a versão do disco. É um ótimo disco compilando apresentações gravadas em boa qualidade.
David Bowie - Earthling (1997)
Que David Bowie é um camaleão todo mundo já sabe, e isso não é nenhuma novidade. O que acontece é que sua produção é vastíssima e muito abrangente. Tem música em italiano, em alemão e até em inglês! Entre este material obscuro de Bowie temos alguns discos inteiros, e Earthling é um destes discos. Inspirado na cena House inglesa dos anos 1990, Bowie resolveu produzir um disco nessa linha. O disco não é uma obra de arte como Ziggy Stardust & the Spiders from Mars ou Heroes, mas ainda assim é bom o suficiente para não diminuir o nome de Bowie. O uso daquelas programações, baterias, sintetizadores e sequenciadores ainda estão ali, como todo bom House deve ter, porém o uso de instrumentos está bem presente e dá o tom original de "Ah, isto é David Bowie". Faixas como Little wonder e Dead Man Walking, poderiam tranquilamente arrasar numa pista de dança.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
The Lemonheads - Hate your friends (1987)
Este é um disco que surpreendeu. Você talvez conheça Lemonheads pelo clipe de Mrs Robinson, ou alguma outra canção mais melodiosa. Não é o caso deste disco, estão crus e nus, como uma boa banda de punk rock bem garageiro é. O incrível é que fazem com maestria esse be-a-bá do punk rock e rock alternativo muito bem, não tão original quanto se gostaria, mas bem feito, e no final das contas, boa música é tão importante quanto música nova. É o disco de estréia da banda, que vai ganhando contornos mais melodiosos ao longo de sua carreira. Também nunca foram uma grande banda, sempre mais restritos ao circuito underground, seu maior sucesso na mídia ainda foi o cover do Simon & Garfunkel. Apesar da sujeira do som deles, já está presente um leve toque melodioso, nada muito forte, mas bem marcado. E eu adoro!
domingo, 22 de junho de 2014
Porno for Pyros - Porno for Pyros (1993)
Os anos 1990 trouxeram o rock alternativo para os holofotes, desde então ele se tornou algo mais comum do que parece. Porno for Pyros é uma dessas bandas alternativas garageiras que passaram pela terra no começo dos anos 90. Resultado da interrupção dos trabalhos no Janes Addiction, membros remanescentes acabaram fundando a Porno for Pyros, chegaram a lançar nada mais que dois discos. Este é o primeiro deles. O tom garageiro está bem marcado nas canções, que buscam alcançar alguma psicodelia, algo perceptível pelos efeitos de guitarra e outras estripulias ao longo das canções. Acho curioso que em canções como Black girlfriend e Orgasm, eles lembram bastante uma sonoridade post-rock, porém de uma forma primitiva e relativamente distante deste gênero. É um disco curioso, com música tão estranhas e bizarras quanto a capa do disco.
terça-feira, 17 de junho de 2014
Dance of Days - a história não tem fim (2001)
Alguns gêneros
musicais são bem conhecidos por suas “bandas genéricas”. Bandas
que fazem a mesmíssima coisa que dezenas de outras já fizeram, os
mesmos tipos de letras, os mesmos efeitos de guitarra, a mesma
estrutura, etc etc etc. O punk, hardcore, post-hardcore são famosos
por isso, assim como emo. Gêneros onde um mar de mediocridade
esconde algumas excelentes bandas, que tem uma inventividade muito
acima da média. O disco “A História Não Tem Fim”, da banda
paulistana Dance of Days é um ótimo exemplo disso.
Já no longínquo
ano de 2001, quando no cenário punk/hardcore era tomado por centenas
de bandas cantando em inglês, com uma sonoridade mais ou menos
parecida, o Dance of Days aparece com seu primeiro álbum cheio, com
15 músicas, 13 delas em português, um álbum gravado quase ao vivo,
o que por um lado mostra todas as falhas técnicas da banda (que não
são poucas), por outro também deixa transparecer toda a força e
energia do álbum. A primeira música, “Se Essas Paredes Falassem”
deixa muito claro a essência da banda, enquanto o vocalista grita a
letra que fala sobre um sujeito que em meio a um mundo extremamente
preconceituoso, se vê em um relacionamento homossexual.
Daí pra frente o
álbum se divide em duas partes, a primeira é extremamente pesada e
agressiva, onde as letras extremamente políticas são ao mesmo tempo
muito passionais, podemos ver isso na música Ícaro Sobre As Chamas:
[...] Enquanto nos porões destas fábricas nosso suor move as máquinas,
a
fumaça cinza apaga o sol,
e
então saímos pra recolher
os
restos por baixo da fuligem.
Por
favor não me deixa ver que nós trocamos
nosso sangue por migalhas e que não há mais abrigo
nosso sangue por migalhas e que não há mais abrigo
pra
se proteger agora que a noite não tem fim.
Segura forte minhas mãos e diz
que amanhã vamos acordar
Segura forte minhas mãos e diz
que amanhã vamos acordar
e
nosso leito não vai estar tão sujo e frio...
O
disco segue com a música “Corvos do Paraíso”, onde o vocalista
Nenê Altro canta suas desilusões de lutas e grupos políticos –
“vejo
a solidariedade proletária escorrer pelo sangue nas costas de meus
irmãos”.
Toda essa primeira parte do álbum é marcada por essa espécie de
desilusão das lutas políticas e da mentalidade de grupo. A próxima
faixa, “Vinda a Mim” é quase um hino anticristão e
anticatólico, e a desilusão política volta mais uma vez em “Flores
Aos Rebeldes Que Falharam”, que tem mais uma letra carregada de
niilismo que diz - “E
nunca conseguimos nada. Todos sonhos que tivemos condenamos ao
esquecimento e ao nosso próprio desprezo”.
E a primeira parte do disco chega ao fim com a música “Carro
Bomba”, a música mais pesada e “punk” do álbum, possui uma
letra que transmite um sentimento daqueles que qualquer trabalhador
assalariado desse mundo já pensou, talvez não de maneira tão
agressiva, mas enfim: - “Você
não imagina o que eu tenho em mente quando digo bom dia... Quando
digo "sim, senhor" eu penso em te erguer pelo pescoço
e te ver mijar nas calças, seu filho da puta.”
Depois dessa canção
de pura poesia e amor ao próximo, começa a parte mais calma do
álbum, onde as músicas são mais cantadas e menos gritadas, e o
aspecto político delas fica mais escondido nas letras pessoais,
extremamente pessoais, é o caso da música “Mais Um Café Gelado
Por Favor”, onde o personagem grita que não quer mais ouvir sobre
trabalho, dinheiro ou como ele deveria mudar o mundo e se comportar,
sobre coisas que ele não
vai mudar. É quase impossível ouvir isso e não se identificar,
porque afinal, todo mundo um dia já passou por isso, esse talvez
seja o grande trunfo da banda e o fator maior do seu “sucesso”, a
capacidade de fazer letras passionais que conservem algum conteúdo,
coisa que era muito pouco vista na música, no rock brasileiro do
final de 90 e começo dos anos 2000.
Após algumas
canções mais “românticas” que deixaram a banda com o rótulo
risivelmente pejorativo de emo, o disco termina com “Suburbia
1996”, uma música em inglês que fala de um garoto que saiu para
ir a um show punk, e que depois, não quer mais voltar pra casa,
prefere ficar no porão onde o show aconteceu, ainda que sozinho. E
termina com:
Oh, please stay and
make me feel alive.
Is it all the same
with all punk kids?
Are we so afraid of
our time passing by?
Just one more
coffee...
just one more
kiss...
Just one more
song... it's all that I need
To feel like the
world isn't bad enough
As long as you are
there for me...
E
assim termina o primeiro álbum do Dance of Days, com suas 15 músicas
quase sem nenhum refrão, gritadas, berradas, cantadas
desafinadamente, mas que é repleto de energia e honestidade. Quem
não é muito fã do gênero dificilmente vai gostar, mas com certeza
vale a pena ouvir, pela história da música e do punk brasileiro.
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&
Campo das bandas
obs: esse é o primeiro post do novo colaborador que chamarei por enquanto de Januário, e que devido a problemas técnicos, foi postado por mim.
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